sexta-feira, 20 de maio de 2011

a caminho de casa

<< A caminho de casa, mais um..., a caminho de casa, mais um, o sentimento>>
para ele a miséria era o prato do dia, viva com o estômago vazio ele nem comia, nunca iria roubar, era honesto demais, nunca iria mendigar era orgulhoso demais, sua prioridade máxima alimentar os filhos, sem espaço para vícios apenas sacrifícios, desde que a mulher partira e partira seu coração, só sobrevivência sem cicatrização, transformado em super-homem, pelas vicissitudes da vida, nunca mudaria as suas atitudes, sem tempo para viver e com a corda no pescoço, a pressão do ganha-pão da escravidão, do esforço, na pobreza com a nobreza, aprendeu a lição, imune à tentação da auto-comiseração, mesmo quando esmorecia e ia ao fundo por momentos, esqueceu a recompensa no sorriso dos rebentos,
 <<vou a caminho de casa, um sentimento, triste invade, a minha alma, a caminho de casa, sou mais um mero sonhador, mais um mero sonhador>>
última recordação do exterior, foi o interior da ambulância, nunca se tinha visionado em tal circunstância, no corredor de urgência a espera era interminável, crescia o medo de um diagnostico nada favorável, família entra sorridente sai com olhos de vidro, tenta aproveitar por um momento o tempo perdido, ela sabe que por dentro algo não funciona bem oitenta e quatro anos de histórias e memórias que ainda lhe trazem uma réstia de força, naquela cama de hospital, pior que uma solitária um estabelecimento prisional, o seu corpo não descansa olhar triste e pesado, sente medo e quando dorme vê fantasmas do passado, sinto o tocar-me na face com a sua mão enrugada, a imponência da doença transforma-nos em nada, de repente sinto toda uma vida a passar-me à frente, o sacrifício torno-me no homem que sou presentemente,
<<vou a caminho de casa, um sentimento, triste invade, a minha alma, a caminho de casa, sou mais um mero sonhador, mais um mero sonhador>>
esta é a historia de um anjo amigo meu, Nuno, é verídica ele já faleceu, não tinha asas, ele escolheu, ser esquecido, mendigo, rico de espírito morreu sozinho, chamemos-lhe ninguém, tinha os olhos brancos foi cegado pela escuridão que a vida tem, cançado de viver com pessoas sem visão, a visão que ele tinha era mais além, ele foi quem não queria ser, vida perfeita que não queria ter, acorrentado pelo ideal, de provar ser, alguém torno-o em alguém irreal, quantas tempestades eu vivi, quantas memórias escrevi, esta foi a página que eu arranquei, quando me lembrei do dia em que eu morri

1 comentário:

  1. Muitos parabéns escreves muito bem estive aqui a ver o teu blog que descobri ao acaso e está muito bom gostei muito do que escreves e como o escreves não o vou perder :)
    Parabéns e continua...gostava de saber quem és
    Beijinho

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